Um dia fui pra rua fazer uma reportagem que acabou nunca sendo publicada. Mas a história dessa comunicação mãe e filho é boa e merece registro. Então, aqui está:
Para conseguir se comunicar com o filho pequeno, Ana Lice de Matos precisou usar criatividade. Thiago teve meningite quando tinha 4 meses de idade e perdeu quase toda a audição. Juntos, mãe e filho criaram alguns códigos próprios, que atendiam bem as necessidades do dia-a-dia. “Mas às vezes ele queria me falar alguma coisa que eu não conseguia entender de jeito nenhum. Ele tinha só 3 anos, mas ficava furioso, batia porta, jogava coisas no chão”, conta Ana Lice.
Aos 5 anos, Thiago conseguiu vaga em uma escola especial para surdos. Lá, antes de aprender o português, ele aprendeu libras, a linguagem dos surdos, e hoje, aos 9 anos, consegue expressar tudo o que deseja. “Ele está muito mais calmo. Antes, as pessoas achavam que ele tinha alguma outra deficiência, de tão difícil que era o comportamento dele.”
Ana Lice também passou a freqüentar a escola para conseguir conversar com o filho. “Já falo bastante coisa em libras, mas ainda estou aprendendo. Agora vou numa aula de sábado na igreja”, conta a mãe. O menino fez tratamento com fonoaudiólogo por dois anos e sabe falar algumas palavras. Mas como as vagas gratuitas são limitadas e a família não tem dinheiro para pagar o tratamento particular, tudo o que ele aprende é mesmo na escola.
Thiago diz adorar o colégio, onde além de estudar libras e todas as disciplinas das escolas regulares, ele também assiste a filmes e desenhos traduzidos pelos professores. Mas apesar de todo o carinho que recebe na escola especial, o menino não se fecha os amigos também surdos. Ele convive bem com crianças da sua idade sem deficiência, diz a mãe. “Enfio ele no meio da criançada ouvinte para ele saber se virar sozinho. Só me meto se dá alguma briga por problema de comunicação.”