Vida e Ficção

27 Agosto, 2008

Os pequenos sustos de um intercambista

Arquivado em: na Sorbonne, na USP — by vidaeficcao @ 3:57 pm
Tags: , ,

Sim, claro, passar um semestre fazendo intercâmbio estudantil na França é maravilhoso. Mas nem tudo são flores se você deseja realmente estudar. Aqui, alguns dos principais sustos que tomei:

Aulas
- Cada disciplina é ministrada segundo o esquema de Aula Magistral (CM, sigla em francês)/ Grupo de Trabalho (TD). A aula magistral é uma espécie de palestra semanal – oferecida em horário único, em um grande anfiteatro, sem lista de presença – e os grupos de trabalho, com classes menores e várias opções de horário, são aulas mais práticas, com mais espaço à participação dos alunos. Esse padrão vale para toda a Europa e o pessoal das secretarias nem imagina que precisa explicá-lo para um estudante estrangeiro (afinal, a maioria dos estudantes intercambistas na universidade vem da Europa). Eu só descobri como funcionava o esquema CM/ TD na segunda semana de aula, conversando com outros alunos.

Metodologia de análises
- Os estudantes franceses chegam ao curso universitário dominando vários padrões de análises e trabalhos, que são: dissertação, comentário composto, comentário comparado, explicação linear. Cada um tem uma estrutura bem rígida e obedecer a esse padrão é determinante para a nota. Como são regras completamente diferentes das utilizadas no Brasil (ao menos das do curso de Letras da USP), foi preciso pedir orientação específica e, mesmo assim, perdi muita nota por errar a “forma”. Apesar da dificuldade, acredito que aprender esse padrão é um bom exercício sobre como organizar o pensamento de várias maneiras – sempre lógicas e claras.

Propostas das disciplinas
- Diferentemente das disciplinas de literatura da USP, a proposta de muitas matérias na Sorbonne privilegia a relação temática entre várias obras em lugar da ligação temporal entre elas. Em Literatura e Sociedade, por exemplo, estuda-se o retrato do povo em quatro obras: duas do século XIX (Noventa e Três, de Victor Hugo, e O Povo, de Michelet), duas do século XX (O Primeiro Homem, de Camus, e Viagem ao Fundo da Noite, de Céline). Em Literatura e Cultura, o fio condutor é o retrato político de várias épocas, segundo autores de correntes políticas diferentes: Lucien Lewen, de Stendhal, L’enfance d’un chef, de Sartre, e Le Feu Follet (sem tradução para o português, mas seria O Fogo-fátuo), de Drieu de la Rochelle.

Provido por WordPress.com