Vida e Ficção

28 Agosto, 2008

Morte antecipada

Arquivado em: no Jornal — by vidaeficcao @ 11:34 pm
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Hoje a agência de notíticas Bloomberg publicou por engano (ops!) um obituário de Steven Jobs, o presidente da Apple.  Claro, o erro de 17 páginas foi rapidamente “apagado”. Mas aí já era tarde demais.

Não é segredo: o procedimento padrão nas redações é preparar antecipadamente material biográfico de figuras importantes que estejam velhas ou doentes (Jobs está doente). O antigo papa, por exemplo, ficou com seu obituário esperando alguns anos na gaveta. Neste momento, todos mantém o Fidel sempre à mão. Pode parecer crueldade, mas prefiro chamar de preparação. A cobertura de uma eleição a gente pode agendar; a de uma morte não. Como fazer se alguém falece faltando 30 minutos pro fechamento?

O jeito é deixar pronto. Mas publicar por engano é um gafe imensa.

Ah, mas o mais absurdo – e o que seria o mais divertido também – ninguém fez.  As “lacunas” de motivo e data da morte apareceram marcadas com “XXXX”.

27 Agosto, 2008

Os pequenos sustos de um intercambista

Arquivado em: na Sorbonne, na USP — by vidaeficcao @ 3:57 pm
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Sim, claro, passar um semestre fazendo intercâmbio estudantil na França é maravilhoso. Mas nem tudo são flores se você deseja realmente estudar. Aqui, alguns dos principais sustos que tomei:

Aulas
- Cada disciplina é ministrada segundo o esquema de Aula Magistral (CM, sigla em francês)/ Grupo de Trabalho (TD). A aula magistral é uma espécie de palestra semanal – oferecida em horário único, em um grande anfiteatro, sem lista de presença – e os grupos de trabalho, com classes menores e várias opções de horário, são aulas mais práticas, com mais espaço à participação dos alunos. Esse padrão vale para toda a Europa e o pessoal das secretarias nem imagina que precisa explicá-lo para um estudante estrangeiro (afinal, a maioria dos estudantes intercambistas na universidade vem da Europa). Eu só descobri como funcionava o esquema CM/ TD na segunda semana de aula, conversando com outros alunos.

Metodologia de análises
- Os estudantes franceses chegam ao curso universitário dominando vários padrões de análises e trabalhos, que são: dissertação, comentário composto, comentário comparado, explicação linear. Cada um tem uma estrutura bem rígida e obedecer a esse padrão é determinante para a nota. Como são regras completamente diferentes das utilizadas no Brasil (ao menos das do curso de Letras da USP), foi preciso pedir orientação específica e, mesmo assim, perdi muita nota por errar a “forma”. Apesar da dificuldade, acredito que aprender esse padrão é um bom exercício sobre como organizar o pensamento de várias maneiras – sempre lógicas e claras.

Propostas das disciplinas
- Diferentemente das disciplinas de literatura da USP, a proposta de muitas matérias na Sorbonne privilegia a relação temática entre várias obras em lugar da ligação temporal entre elas. Em Literatura e Sociedade, por exemplo, estuda-se o retrato do povo em quatro obras: duas do século XIX (Noventa e Três, de Victor Hugo, e O Povo, de Michelet), duas do século XX (O Primeiro Homem, de Camus, e Viagem ao Fundo da Noite, de Céline). Em Literatura e Cultura, o fio condutor é o retrato político de várias épocas, segundo autores de correntes políticas diferentes: Lucien Lewen, de Stendhal, L’enfance d’un chef, de Sartre, e Le Feu Follet (sem tradução para o português, mas seria O Fogo-fátuo), de Drieu de la Rochelle.

26 Agosto, 2008

O mito de Fausto

Arquivado em: na Sorbonne — by vidaeficcao @ 11:52 am
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Das disciplinas que eu escolhi para cursar na Sorbonne, a melhor foi Literatura Comparada. Estudei a trágica história do Fausto de Marlowe (1604), o Fausto de Goethe (1839), o Dr. Fausto de Thomas Mann (1947) e o “Meu” Fasto de Paul Valery (1946). Sei também que existe um Fausto de Fernando Pessoa, mas esse eu ainda não tive a oportunidade de ler.

Esse tal dr. Fasuto, um sábio que faz um pacto com o diabo para poder dominar todo o conhecimento, é na verdade um mito alemão, algo como o nosso Saci. Um personagem mais ou menos definido na imaginação popular e que alguns autores tomam emprestado como personagem de suas próprias histórias. Não é um mito a se desprezar… ele já existe há mais de 400 anos e continua sendo atual.

Fausto é o mito do desejo desenfreado de saber – e da responsabilidade sobre os nossos atos. Ele é uma espécie de herdeiro de Ícaro. O Fausto, seja ele descrito por quem for, nunca volta atrás e quebra o pacto. Para ele, não existe possibilidade de retorno. Fausto é também um mito sobre o tempo e a morte.

Os Faustos de hoje vêm do progresso científico. Tudo bem que o homem não é mais o centro do mundo, como ainda se pensava na época de Marlowe apesar da “teoria” de Copérnico, mas a inteligência humana permite ao homem “dominar” a natureza. E assim, uma vez mais, o homem se faz o centro do universo. E a velha questão da moralidade continua a nos perseguir: qualquer coisa é válida em nome do conhecimento e do “progresso”?

22 Agosto, 2008

Old news

Arquivado em: no Jornal — by vidaeficcao @ 7:17 pm
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Para você, que sentido tem hoje a literatura, que sofre especialmente com a pressão do mercado?
Os romances são os sonhos da humanidade. Sem romances, todos seríamos muito mais loucos. E a literatura em geral, assim como a arte, são as maiores armas que o ser humano dispõe para lutar contra o horror e o caos. Há muita esperança no ato de ler e escrever, esperança na possibilidade de ser entendido e de compreender o outro, esperança na capacidade que temos para comunicarmos, para transmitirmos pensamentos, para compartilhar sentimentos, para criar beleza. A literatura permite que sejamos melhores do que somos. E o mercado não passa de um pequeno acidente nesse percurso.

Rosa Montero, jornalista espanhola, em entrevista para Ubiratan Brasil

21 Agosto, 2008

Questionamento do dia

Arquivado em: na USP — by vidaeficcao @ 9:43 pm
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No conto O homem célebre, de Machado de Assis, o protagonista é caracterizado como uma “eterna peteca entre a ambição e a vocação”.

Então o professor pergunta: E não somos todos essa peteca entre o que queremos e o que podemos?

20 Agosto, 2008

A boa vida é cara…

Arquivado em: na Sorbonne — by vidaeficcao @ 9:37 pm
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Muita gente já me perguntou se é muito caro morar na França. Os alugueis são caríssimos, comer fora também, mesmo que seja sanduíche. O transporte público dentro de Paris fica em 55 euros por mês, com direito a viagens infinitas. Aproveito pra deixar uma listinha de gastos com compras de sobrevivência. Os preços são de março/abril. É tudo em euro, claro

0,76 – 1l de leite

0,69 – um potinho minúsculo de um iogurte maravilhoso

5,71 – pote de 500g de Haagen-Dazs

0,68 – 1l de suco de uva (muito ruim – todos os sucos lá são ruins, mesmo os mais caros)

3,00 – 500g de cereais

1,00 – 280g de pão de forma

3,85 – 1 kg de achocolatado em pó Neskik

1,30 – queijo cremoso

2,22 – 250g de emmental

0,85 – 200g de manteiga

0,75 – mini latinha de atum – sim, é bem pequena mesmo

0,59 – 500g de macarrão

0,79 – molho pronto para massas sabor napolitano para 4 pessoas

8,00 – 4 pratos prontos congelados variados da Picard/ porções individuais

1,79 – batata pringles

1,30 – pé de alface americana

1,00 – cenoura (1kg)

2,70 – tomate (1kg)

0,52 – potinho de orégano

1,00 – 3 kiwis

1,42 – 180g de chocolate (kitkat)

4,00 – xampu

3,70 – condicionador

5,49 – sabão em pó para 28 lavagens

2,29 – 1l de amaciante

1,49 – inúmeros sacos de lixo 30l

2,14 – 6 pilhas alcalinas

19 Agosto, 2008

Bad news good news?

Arquivado em: no Jornal — by vidaeficcao @ 8:34 pm
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Costumam dizer que a imprensa só publica coisas ruins, que só critica e que é contra a esquerda. Ok, muitas vezes é assim mesmo. Por tudo isso, vale o destacar esta matéria do dia 19, do Estadão.

Chinaglia corta hora extra

O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), recebeu de funcionários da Casa o apelido de “1 para as 7” depois que adotou a regra de encerrar as sessões do plenário antes das 19 horas para não pagar salários extras quando há obstrução e as votações não vão avançar por falta de acordo entre os partidos. Encerrar a sessão antes das 19 horas evita o pagamento de sessão noturna para os funcionários.
A irritação dos servidores pode ser medida em um valor: R$ 450 mil é o que a Câmara deixa de gastar por dia em que a sessão é finalizada antes das 19 horas. Desde que assumiu a presidência da Casa, em fevereiro de 2007, foram economizados R$ 22 milhões somente com a adoção desse procedimento, apenas encerrando as sessões minutos antes das 19 horas.
Chinaglia, assim que assumiu a presidência da Câmara, acabou com uma prática que, muitas vezes, era feita em cumplicidade entre deputados e funcionários. Mesmo sem votação, deputados ficavam fazendo discursos para que a sessão passasse das 19 horas e, com isso, obrigar a Câmara a pagar horas extras. Não era raro o discurso acabar cinco minutos depois do horário, garantindo assim o pagamento da sessão noturna e permitindo que os funcionários chegassem cedo em casa com suas contas bancárias mais abastecidas no fim do mês.
Agora, as sessões só ultrapassam o horário quando realmente há votações que exijam prorrogação do expediente, como ocorre nas quartas-feiras.
Para evitar boicotes à sua decisão, já aconteceu de Chinaglia deixar o gabinete da presidência, atravessar o Salão Verde para correr ao plenário e encerrar a sessão em que menos de meia dúzia de deputados estava presente.

18 Agosto, 2008

Ator

Arquivado em: na Vida — by vidaeficcao @ 2:59 pm
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Tão pequeninho e já é um ator. E dos bons! Deve ter uns 6 ou 7, no máximo 8 anos. Mas sabe fazer uma cara de cortar o coração de qualquer um. Nem o mais insensível dos durões resiste. Faz um jeito de coitado, de quem carrega uma vida inteira de sofrimentos nas costas, com desenvoltura de gente grande. Mas que ganha contornos ainda mais dramáticos por ser um menininho tão novinho. E ainda por cima é super concentrado. Não desveste o personagem de jeito nenhum. O tempo todo se mantem no papel, sem piscar, sem sorrir, sem lançar um olhar curioso, tão típico das crianças, por mais esquisita que seja a roupa do espectador, sem demonstrar qualquer ar de surpresa, por mais imprevista que seja a reação da platéia. Segue seu caminho no mesmo passo, sem nunca correr, sem nunca mostrar vitalidade, sem nunca dizer mais que sua fala de dois ou três resmungos bem ensaiados. O palco parece interminável para um andar assim tão desanimado. E as horas se arrastam. Mas ele é determinado, não foge do script.

O diretor, tão empanhado em aperfeiçoar a cada dia a atuação, terá ensinado o menino a voltar a ser menino? Será que ele ainda sabe sorrir? Ou terá se esquecido de vez? Será que esse atorzinho tem consciência de que é um ator, ou assumiu a personalidade que interpreta? Como se comportará em casa, com seus irmãos, pais, avós? Saberá diferenciá-los do público geral? Ou atua também para eles? Será que tem casa? Será que tem mãe? Ou vive assim mesmo na rua, mulambento, sem família, triste para toda a vida?

17 Agosto, 2008

Melhor prof. do mundo

Arquivado em: na USP — by vidaeficcao @ 5:40 pm
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Ok, reconheço que não conheci todos os professores do mundo. Mas, do meu mundo, ela é imbatível! Não digo que seja perfeita (isso ninguém é, claro), mas eu só posso fazer elogios. Afinal, foi por causa dela que não desisti do francês.

Já estudei inglês, espanhol e agora, me esforço com o francês. Posso garantir uma coisa: aprender outra língua é muito chato. Sempre! Ficar decorando conjugações de verbo, nomes de comidas, objetos, etc. Tenho tanta coisa mais interessante pra fazer com o meu tempo…

Aí aparece uma professora doutora toda graduada que faz os estudantes universitários assistirem a filmes, que grava zilhões de cds de múcisa e os distribui pela classe, que marca aulas extra para quem quiser ganhar fluência oral, que pede trabalhinhos todas as semanas, todos sem o peso das provas bimestrais e das grandes listas de regras a decorar. No fim do semestre, teve até aula prática (e degustação) de culinária francesa.

Graças a ela, aprendi a gostar da língua francesa – e também da França.

16 Agosto, 2008

NA SORBONNE

Arquivado em: na Sorbonne — by vidaeficcao @ 3:09 pm
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Uma coisa que aprendi estudando na Sorbonne: nunca chegar em cima da hora. Não, o problema não são os professores que reclamam (ok, alguns até reclamam, ). O problema é que subir com pressa os três andares imensos até a classe me deixava absolutamente sem fôlego. Quando estou atrasada não consigo não correr. A única solução que encontrei foi chegar sempre com antecedência. Lindo, não?!

Sem dúvida lé uma faculdade de ponta, mas no quesito arquitetura, ela deixa a desejar. Bom, ao menos para nós brasileiros, habitantes de um país novo, ou para mim, paulista, acostumada a prédios sempre competindo para serem mais modernos. O prédio em que estudava é da primeira metade do século 17. Uma reforminha aqui, outra ali, colocaram UM (!!!) elevador para a universidade inteira.

De quinta-feira, minha primeira aula era no terceiro andar. Depois tinha uma hora de intervalo, que eu aproveitava para passear um pouquinho pelo Quartier Latin. Voltava para a segunda aula do dia, também no terceiro andar. Então, precisava descer os três andares, sair para a rua e entrar por outra portaria para a última aula do dia – e mais uma vez, encarava três lances de escada.

Bom, também morava no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ou seja, passei a subir 12 andares às quintas. Isso sem contar as escadarias do metrô, quase sempre sem escada rolante. Daí meu segundo aprendizado: os franceses são magros sim, mas não porque se alimentam direito: é porque precisam subir muitas escadas, em toda parte.

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